quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Episódio 30


No dia seguinte, a situação da sujeira na cidade era ainda mais desesperadora. As ruas centrais exalavam um cheiro insuportável devido aos sacos de lixo que transbordavam dos contêineres e eram empilhados em todas as esquinas. As pessoas que circulavam pela área central chegavam a tapar o nariz com as mãos quando passavam em frente de um dos contêineres rodeados de moscas e cachorros vira-lata em busca de comida. Os funcionários da COVAT lamentavam a situação, pois aquela também era a cidade deles e, obviamente, gostariam de vê-la limpa, organizada e bela, como sempre havia sido. No entanto, sabiam que estavam lutando por uma causa justa e importante para todos e, por isso, não podiam desistir na metade do caminho. Determinados a conquistar melhores condições de trabalho e melhor remuneração, fariam tudo o que fosse necessário, nem que para isso a cidade se transformasse em um verdadeiro "lixão".
O presidente Manuel Vargas e o prefeito Mostarda Moura, que já haviam se encontrado dias antes para discutir sobre a greve dos trabalhadores da COVAT, começavam a se preocupar com a situação de Nova Rita Santa. Algo precisava ser feito com urgência. Eles não poderiam deixar que o município, reconhecido como um dos mais modernos e bem organizados do Estado em questão de limpeza, coleta e reciclagem de lixo, virasse notícia em função da sujeira e do descaso com o acúmulo de resíduos. Além disso, a saúde pública também começava a ser ameaçada pela sujeira, visto que o grande número de ratos e baratas atraídos pelo lixo poderia contribuir para a disseminação de doenças, principalmente nos bairros mais desfavorecidos.
Assim, movidos por essas e outras preocupações, Manuel Vargas e Seu Mostarda resolveram convocar os líderes da greve para a reunião no escritório administrativo da COVAT. O objetivo era tentar entrar em um acordo com os funcionários para que os mesmos voltassem ao trabalho e, conseqüentemente, fosse possível normalizar a situação da limpeza e da coleta de lixo na cidade. O presidente Manuel Vargas, porém, continuava irredutível quanto à exigência de aumento de 15% nos salários e ao pedido de que não fossem descontados do pagamento dos varredores os dias de chuva, nos quais não podem trabalhar. As demais reivindicações até poderiam ser atendidas, mas as negociações seriam acirradas. De qualquer maneira, decidiram contatar os representantes dos trabalhadores e agendar uma reunião para a primeira hora da tarde.
Quando souberam da decisão, Varre Tudo e seus amigos comemoraram. O encontro com o presidente da COVAT e com o prefeito da cidade representava a chance de os trabalhadores terem suas exigências atendidas. Todos estavam ansiosos para a reunião e aproveitaram os últimos minutos para repassar as sete reivindicações que haviam anotado na semana anterior.
– Pessoal, precisamos estar cientes de todas as nossas exigências. Vamos nos unir e lutar por elas. Não podemos abrir mão do que decidimos! – disse Varre Tudo, que buscava motivar os colegas.
– É isso aí! – gritou Abelhão. – Não podemos ceder aos pedidos nem às ameaças do presidente Manuel Vargas. Vamos exigir nossos direitos e conquistar melhores condições de trabalho pelo nosso amigo Junior, que está sofrendo no hospital neste momento!
– Falou e disse, Abelhão! Além de pensar no nosso bem-estar, devemos isso ao Junior. Ele merece o nosso empenho e esforço! – completou Magali, enquanto olhava fixamente para Varre Tudo.
O relógio não marcava nem uma hora da tarde quando os coletores, capinadores e varredores concentraram-se em frente à sede administrativa da COVAT. Carregando cartazes e gritando frases de protesto, os trabalhadores formaram uma multidão para receber o prefeito e o presidente, que, em seguida, chegariam de carro ao local. Enquanto isso, Varre Tudo e Abelhão, líderes dos varredores na greve, mais as duplas de representantes dos capinadores e dos coletores já se acomodavam nas cadeiras estofadas do escritório da COVAT para aguardar o início da reunião. Varre Tudo sentia o coração bater mais forte e as mãos suarem. O encontro estava prestes a se iniciar e eles precisavam sair vitoriosos. Ao seu lado, Abelhão, mesmo sem muito experiência com negociações, demonstrava confiança. Poucos minutos depois, a porta do escritório se abriu.
– Boa tarde, senhores! – cumprimentou-os o prefeito Mostarda Moura.
– Boa tarde! – responderam os trabalhadores.
– Primeiramente, gostaria de deixar claro que eu e o presidente Manuel Vargas estamos aqui a fim de entrar em acordo com os senhores. Faremos o possível para atender às suas exigências e para reverter a situação em que nossa cidade se encontra. – explicou Seu Mostarda.
– Ótimo. – disse Varre Tudo. – Estamos dispostos a voltar ao trabalho assim que todas as nossas reivindicações forem aceitas.
– Algumas de suas reivindicações são inaceitáveis! – exclamou Manuel Vargas, interrompendo o prefeito, que estava prestes a se pronunciar. – O máximo que podemos garantir é o auxílio creche para as funcionárias, o auxílio alimentação de 5% ao mês e o pagamento de horas extras. As demais exigências são absurdas! Simplesmente impossíveis de serem acatadas no momento.
Os trabalhadores entreolharam-se por um instante, incrédulos do que estava acontecendo. Todos imaginavam que a reunião significaria que Manuel Vargas, juntamente com o prefeito, aceitaria as reivindicações dos trabalhadores e negociaria com eles o retorno ao trabalho. Estavam enganados. Varre Tudo decidiu manifestar seu descontentamento com o encontro:
– Senhor prefeito e senhor presidente, os senhores nos convocaram para vir até aqui apenas para anunciar que não atenderão nossas exigências? – indagou o varredor. – Digo isso porque, se é assim, estamos apenas perdendo tempo nesta sala. Não vamos desistir de nossos objetivos. A greve vai continuar se não chegarmos a um acordo digno.
– Pois eu já lhe ofereci um acordo digno, caro varredor. – disse Manuel Vargas, ironicamente. – O senhor é que não valorizou a oportunidade. Já disse que algumas das exigências são absurdas. Portanto, atenderemos somente as que forem viáveis para a empresa e para a cidade.
– E quanto ao aumento de 15% nos salários? – perguntou Abelhão.
– Essa é uma das exigências impossíveis. O máximo que poderíamos negociar seria um aumento de 5% nos salários. – respondeu o presidente.
– Sinceramente, pessoal! O presidente e o prefeito estão fazendo piada com a nossa cara. Vamos embora! Não temos mais nada para discutir aqui! Temos uma greve para dar continuidade! – disse Abelhão, enquanto levantava-se da cadeira.
Todos começaram a se exaltar. Os trabalhadores, indignados, conversavam entre si, enquanto Varre Tudo tentava conversar com Seu Mostarda e o presidente. A reunião, que havia sido iniciada de maneira civilizada, agora estava fora de controle. Assim que ficaram sabendo do resultado negativo do encontro, os funcionários que se concentravam em frente à sede da COVAT dirigiram-se para o prédio da Prefeitura. No caminho, começavam a bolar um protesto surpresa para o dia seguinte, algo que realmente fosse capaz de abrir os olhos de todas as autoridades, e também da população, para as conseqüências da greve dos varredores e coletores da cidade.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Episódio 29


O final de semana passou batido, mas não para os moradores de Nova Rita Santa. A sujeira acumulava mais a cada dia, e o mau-cheiro incomodava as pessoas. A cada turno que a COVAT deixava de trabalhar, maior era o desespero das pessoas em relação ao que fazer com o lixo que acumulava em suas casa. As lixeiras particulares estavam abarrotadas, os contêineres não tinham espaço para mais nada, e os cachorros de rua rasgavam as sacolas fedorentas em busca de alimento. A cidade, reconhecida pelo asseio e organização, agora virara um caos.
Era segunda-feira e a esperança de que a greve acabaria logo habitava o coração e o pensamento dos moradores da cidade. Eles estavam divididos entre entender ou não os motivos da greve. Muitos achavam que os funcionários da COVAT estavam desrespeitando a população, que nada tinha a ver com aquela questão, e estava sendo diretamente prejudicada. Um desses era Juseppe, que fazia questão de gritar aos quatro ventos que os funcionários da COVAT eram interesseiros e só pensavam em dinheiro. Outros entendiam a manifestação dos trabalhadores por melhores salários, mas principalmente por melhores condições de trabalho, e comentavam o acidente de Junior, entre eles, Jaciara. De um lado, a intransigência de Juseppe e sua intriga pessoal com Varre Tudo. De outro, o amor de Jaciara.
- Acho melhor não tocarmos no assunto da greve enquanto as coisas não estiverem acertadas. – disse Jaciara, olhando fixamente para o namorado.
- Concordo, cada um com sua opinião. – sussurrou Juseppe, com a voz apreensiva.
Enquanto as pessoas tentavam levar sua vida normalmente, o lixo se acumulava mais e mais. A discussão estava presente nas escolas, nos bares, em todos os lugares, e pela primeira vez na vida, algumas pessoas começaram a perceber a importância dos “lixeiros”, como eram conhecidos, para a manutenção da saúde e do bem-estar de uma população.
Uma dessas pessoas era dona Rosinha, que adorava delatar os funcionários da COVAT para Seu Pedroca, mas que desta vez estava era com saudades daquelas figuras tão discretas e onipresentes, e ao mesmo tempo tão necessárias.
Nem o céu parecia satisfeito com aquela situação. As nuvens eram estranhas, o azul não era límpido. A impressão era de que a cidade havia retrocedido décadas, pois as pessoas conviviam lado a lado com o lixo, sem saber o que fazer com ele. Alguns órgãos e profissionais da saúde chamaram atenção para a responsabilidade das pessoas com a finalidade de seu próprio lixo, surgiram estatísticas, gráficos, e muita explicação e reflexão sobre a quantidade de lixo produzida pelo homem.
Longe dessas reflexões estavam Varre Tudo, Magali e Abelhão. Eles, acostumados a conviver com o lixo, tinham consciência de sua própria colaboração para o acúmulo de resíduos, mas naquele momento o que interessava era a greve, e bolar um jeito de convencer as autoridades de que a aceitação das solicitações dos funcionários da COVAT era para o bem de todos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Episódio 28




Às oito da manhã de quinta-feira Varre Tudo e os amigos estavam aguardando seu Pedroca na sala de reuniões da COVAT. Eles decidiram ainda na noite anterior formar uma comissão responsável pelas negociações. Varre Tudo e Abelhão representavam os varredores, Igor e Carlos os capinadores e Vagner e Lúcio os coletores. A reunião estava marcada para as 8h15, mas tinham chegado antes para decidirem como iriam abordar a questão relacionadas ao salário e melhores condições de trabalho.
- Pessoal, não podemos sentir medo! Se não lutarmos por nossos direitos agora, vamos estar retrocedendo! – frisava Varre.
- É isso mesmo! Não podemos baixar a cabeça! – afirmou Lúcio.
Seu Pedroca chegou acompanhado pelos três gerentes de cada departamento da COVAT e pelo Presidente Manoel Vargas. Era a primeira vez que os funcionários tinham contato com o presidente da empresa. Seu Pedroca era um homem gentil, sempre atento às questões que incomodavam o pessoal que trabalhava na rua. Conhecia a todos pelo nome, e não eram poucos, 350 pessoas trabalhavam na COVAT, 250 divididos entre a capina, a coleta e a varrição. Mas Manoel era diferente, nem sequer cumprimentava os rapazes que limpavam o pátio da empresa. Varre Tudo sentiu que as negociações não seriam fáceis.
- Bom dia!
- Bom dia, seu Pedroca! – responderam em coro.
- Bem, eu quero apresentar a vocês...
- Por favor, Pedroca! Eu dispenso apresentações, eles sabem perfeitamente quem eu sou! E vamos logo ao que interessa. O prefeito já me ligou para pedir por que os funcionários estão todos na frente da prefeitura, sentados, e com cartazes. Isso é uma vergonha! Em Nova Rita Santa isso nunca aconteceu! O que querem, afinal?
- Bem, Manoel!Viemos aqui reivindicar melhores salários e condições de trabalho. O Junior, nosso colega, perdeu a mão no compactador de lixo, porque não tinha experiência, alguém tem que tomar uma atitude! – disse o rapaz calmamente.
- Olha, guri! Eu te vi no jornal. Tu tá querendo se promover? É isso? – perguntou irritado.
- Não! Aqui está a proposta. Se não for aceita, vamos decretar greve por tempo indeterminado.
Varre Tudo entregou uma cópia a cada um deles. Seu Pedroca e os gerentes estavam preocupados. Eliseu, que cuidava da varrição e gostava muito de Varre Tudo, foi o primeiro a falar.
- Manoel, temos que analisar a proposta deles com atenção. Afinal, a COVAT, tem sido um exemplo na região graças ao desempenho dos funcionários. Então...
- Eliseu! Tu deve estar maluco! Aumento de 15%! – disse ele.
Seu Pedroca e os outros gerentes decidiram intervir.
- Por favor, aguardem lá fora enquanto decidimos! – pediu gentilmente.
Mais de uma hora depois eles voltaram à sala. Seu Pedroca disse que iam se reunir com o prefeito, mas que Manoel se negava a fazer qualquer acordo e que, caso eles não voltassem ao trabalho, corriam o risco de serem demitidos.
- Nós não vamos recuar! – afirmou Carlos.
Todos concordaram e se retiram em silêncio. Eles se dirigiram à prefeitura. Quando chegaram lá, Varre Tudo contou a todos o resultado da reunião.
- Atenção pessoal! Nossa proposta não foi aceita, nem sequer tentaram negociar. O Seu Pedroca é gente boa, mas ele segue ordens do Manoel e com o presidente não tem conversa. Eles estão no gabinete do prefeito agora. Mas enquanto não decidirem aceitar nossas reivindicações ou pelo menos negociar conosco, não vamos trabalhar.
- É isso mesmo! – gritou Magali, orgulhosa do espírito de liderança de Varre.
- Vamos lutar pelos nossos direitos! – gritavam todos.
- A greve começou! – decretou Varre.
Todos aplaudiram Varre Tudo de pé. Então cantando gritos de ordem, os funcionários uniformizados, caminharam em direção ao centro da cidade. A greve estava decretada por tempo indeterminado. E com a adesão total dos varredores, capinadores e coletores de Nova Rita Santa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Episódio 27

Dona Arzelina puxou a conversa que só foi terminar no Parque dos Sabiás, quando a chuva aumentou e os amigos não poderiam mais trabalhar. Por idéia de Shirley, eles foram até o Bar do Boca, conversar sobre o que havia acontecido com Júnior.

- Sabe pessoal, agora me lembro que em 1984 meu tio trabalhava na COVAT e um cara se machucou quase da mesma forma que o Júnior. Mas, naquela época a coisa era pior, os trabalhadores da empresa nem tinham insalubridade e não eram assistidos quando ocorriam acidentes como esse. – relembrou Abelhão.

- Nossa! Em lembrar que uma vez era bem pior. – comentou Josias.

- Olha! Eu sou a favor da gente fazer alguma agitação. Agora me lembro de outro caso, há uns dois anos, em que uma mulher foi atropelada na rua enquanto varria, e a COVAT abafou o caso e depois a mulher foi demitida. – disse Varre Tudo que naquele momento já estava nervoso com todos os acontecimentos.

- E para piorar, nosso salário está muito baixo. Poxa! No meu caso que tenho mãe e irmã para sustentar, está ficando cada vez mais complicado. – disse Josias.

- Ih Josias! E o meu namorado, quer que eu saia da COVAT para arranjar um lugar em que eu ganhe mais. – retrucou Shirly.

- Bem, diante desse quadro em que a gente se encontra, más condições de trabalho e baixos salários, eu sou a favor que a gente entre em estado de greve. – disse Abelhão, que já tinha na família, trabalhadores sindicalizados e mais conscientes com essa história de direitos trabalhistas.

- Mas, e como se faz uma greve? – perguntou ingênuo Varre Tudo.

- Olha Varre! – respondeu Abelhão. – Não é uma coisa muito simples, exige muito envolvimento, tem que participar de reuniões, definir um plano de ação, colocar no papel as nossas reivindicações, ter um diálogo aberto com os patrões, enfim, é uma coisa de envolvimento mesmo.

- Nossa Abelhão! Onde tu aprendeu tanta coisa, até parece aqueles intelectuais da faculdade... hehehe. – brincou Shirley.

- Não isso que tu falou Shirley, é que quando eu era criança meu tio sempre me levava nessas assembléias e eu convivi com isso. – explicou Abelhão.

- Ah! – disse em coro os amigos.

- Mas então, por onde vamos começar? – falou Varre Tudo.

- Parando de trabalhar. – disse Josias, meio irônico.

- Sim, mas acho interessante a gente começar a nossa greve levantando uma pauta de reivindicações, tomando como base esse acidente com o Júnior e relembrando os fatos chocantes da história da COVAT. – comentou Abelhão.

- Isso mesmo Abelhão. Gostei da idéia. – falou Varre Tudo já puxando um pedaço de papel da mochila e uma caneta. – vou escrever aqui as nossas reivindicações, depois a gente passa a limpo. – disse Varre Tudo.
Varre Tudo começou a listar algumas prioridades para a categoria de varredor, capinador e coletor de lixo da COVAT. Ele foi listando em voz alta, com a ajuda dos amigos.

- Primeiro ponto: aumento real nos salários de 15%

- Segundo ponto: insalubridade para todos os trabalhadores com direito a atendimento médico de urgência.

- Terceiro ponto – diz aí dona Arzelina. – falou Varre Tudo.

- Terceiro ponto – disse Arzelina. – eu acho que é uma aposentadoria digna. Como se diz mesmo Abelhão? Plano de quê?

- Plano de carreira – explicou Abelhão.

- Isso mesmo! Anota aí Varre Tudo. Terceiro ponto: plano de carreira para os aposentados.

- Quarto ponto: auxílio creche! – disse Shirley. – ano que vem pretendo ter um bebê...

- Quinto ponto: auxílio alimentação de 5% todo o mês. – disse Abelhão. – por que a gente tem que comprar comida, né?

- Sexto ponto: não descontar do salário os dias de chuva. Vocês viram que está rolando uma história para descontar os dias não trabalhados em função da chuva. A gente não tem culpa. – disse Varre Tudo, sempre informado.

- Sétimo ponto: o pagamento de hora extra e não banco de horas, como eles fazem hoje. – contribuiu Josias.

- Bem pessoal, acho que era isso. Será que tem mais alguma coisa? – disse Abelhão.

- Ah, acho que por enquanto não. – disse Varre.

- Escuta Varre, já que você começou a escrever, passa a limpo isso, com letra bonita e amanhã a gente faz xerox e escolhe uma comissão para falar com a direção da COVAT. - Certo! Deixa comigo. A partir de amanhã, Nova Rita Santa vai começar a tratar melhor quem trabalha com o lixo. Agora é greve! – concluiu Varre Tudo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Episódio 26


Junior ouvia um murmúrio e não compreendia nada. Não enxergava nada, via apenas a escuridão. Tinha a sensação de que seu corpo flutuava. Não conseguia mover-se. Abriu os olhos lentamente. A visão fez um degradê. Do preto para o cinza. Do cinza para uma cena nublada. Podia reconhecer a sala branca de um hospital e muita gente ao seu redor, explicando as conversas. Junior consegue erguer a cabeça e lá estão seus amigos. Abelhão, Verre Tudo, Shirley, Josias, Magali e até dona Arzelina.
- Mal saí do hospital, Junior, já tive que voltar! - brincou Dona Arzelina.
Sob o lençol, deitado na cama do hospital, Junior não conseguia lembrar-se do acidente, não enxergava, nem sentia o seu braço, e perguntou.
- O que é que eu tô fazendo aqui, pessoal?
O amigo Varre Tudo deu um sorriso leve, não sabia como contar o amigo.
- Você teve um ferimento muito grave...
Nessa hora, ouvem uma discussão que vem do corredor do hospital. Algumas mulheres gritam. Varre Tudo olha para os amigos com uma expressão indagadora.
- Nossa! Hospital é local de silêncio! O que é isso?
Shirley levanta, abre a porta da sala para ver o que está acontecendo e ouve:
- Como assim, teu namorado!? Ele veio lá na minha casa ontem!
Shirley compreendeu. Junior não tinha apenas fama de namorador e, agora, todas as suas paqueras se encontravam. Eram quatro. A varredora resolve chamar a atenção:
- Meninas! Vocês estão num hospital! Silêncio, se não, vão mandar todos nós embora. O Junior tá mal! Respeito! E como deixaram subir tanta gente assim num quarto só.
- A gente pediu a chave do quarto errado, sem querer – disse rindo uma delas.
Shirley estava revoltada. Não acreditava que as meninas estavam rindo e pensando tanta baboseira, enquanto seu amigo estava com um sério problema.
- Façam o favor de descer! Depois que alguém sair daqui vocês sobem! Uma por vez. Se quiserem brigar, problema de vocês!
As quatro fizeram cara feia para Shirley, mas se direcionaram até o elevador.
Os amigos, dentro da sala, estavam em silêncio tentando compreender o que acontecia, quando Shirley entrou.
- Xi! Me dei mal! – disse Junior.
Varre Tudo ia falar para o amigo o que havia acontecido quando uma enfermeira chegou.
- Pessoal, o Junior precisa descansar. Que barulho é esse?
- Não era aqui não – explicou Shirley – eram umas garotas malucas que estavam no corredor.
A enfermeira voltou-se para Junior:
- Como está, rapaz?
- Não sinto nada – disse Junior.
- Você lembra do acidente?
- Acidente? Mas... Droga! – reclamou o rapaz lembrando do que acontecera – como está minha mão?
- Fique calmo! Você ainda está sob o efeito da anestesia. Mas, tivemos que amputar a sua mão, sinto muito. Não tínhamos o que fazer.
- Mas e agora como vou trabalhar!? – Pediu Junior num choro desesperado.
- Por favor, não se preocupe com isso agora. Você precisa descansar e manter-se calmo. Tome isso – indicou a enfermeira que trazia uma cápsula de remédio – assim você consegue dormir até que se recupere.
Junior tomou o comprimido e alguns minutos depois estava dormindo. Os amigos estavam indignados. Saíram da sala quietos e tristes.
Fora do hospital encontraram as “namoradas” do rapaz conversando passivamente. Shirley pediu:
- Vocês vão subir agora?
- Não. Decidimos que nenhuma de nós vai ir ainda atrás dele – esclareceu uma delas.
Shirley não ligou muito para o que a menina disse, pois estava preocupada com Junior e voltou a falar com os colegas.
- A gente precisa fazer alguma coisa. Não podemos deixar nosso amigo nessa situação. Que tristeza, gente! – disse Shirley suspirando.
- Pois é... – falou Varre Tudo – eu estou pensando que a gente pode ir até o escritório da COVAT e falar com alguém.
- Bah! O Junior foi lá hoje! Por que ele tinha que pedir pra trabalhar na coleta!? - reclamou Abelhão - Isso não precisava ter acontecido com ele.
- Não sei como colocam alguém trabalhar na coleta, sem nenhuma instrução! – refletia Dona Arzelina – O rapaz não tinha experiência. Ele devia ter ficado um tempo em treinamento. Isso é coisa muito séria. Irresponsabilidade de quem deixou ele trabalhar na coleta!

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Episódio 25


Enquanto Dona Arzelina fazia aquela inesperada revelação para os amigos, Junior seguia o mais rápido possível em direção ao escritório da COVAT. O varredor estava determinado a arrumar uma vaga na coleta do lixo, já que há dias a chuva o impedia de trabalhar e ganhar pelo seu serviço. Estava realmente preocupado com a situação, pois sabia que o tempo chuvoso afetaria negativamente seu salário.
Assim que entrou no escritório, Junior foi em direção ao balcão de atendimento aos funcionários. Havia uma secretária ao telefone, e, por isso, se obrigou a sentar em uma das cadeiras estofadas da sala de espera. Estava bastante inquieto e ansioso. Não via a hora de conseguir um modo de recuperar as horas de trabalho perdidas e de aumentar seu salário. Tão logo a secretária desligou o telefone, Junior levantou-se e, a passos largos, alcançou o balcão. Cumprimentou a secretária e disse:
– Me chamo Antônio Carlos Junior, sou varredor. Queria saber se, por acaso, há alguma vaga para trabalhar como coletor durante esses dias de chuva, em que não podemos varrer as ruas da cidade. Seria possível? – indagou Junior.
– Deixe-me ver se entendi direito. – disse a secretária tentando compreender o pedido de Junior. E continuou: – Você é varredor da COVAT e gostaria de trocar sua função dentro da empresa para coletor. É isso? – perguntou ela.
– Não exatamente. Na verdade não quero trocar de função, gosto de trabalhar como varredor. O que acontece é que, nesses dias em que tá chovendo, assim como hoje, nós varredores não podemos trabalhar e, no final do mês, essas horas são descontadas do nosso salário. Daí, já viu, né. Se chove bastante a gente recebe pouco dinheiro e não consegue pagar as contas do mês. Por isso queria fazer algumas horas, nem que sejam temporárias, na coleta do lixo. Assim garanto o dinheiro no final do mês. – explicou-se Junior.
– Tá certo. – concordou a secretária, balançando a cabeça positivamente. – Vejamos o que posso fazer por você.
A secretária analisou algumas folhas de papel que estavam à sua frente, verificou o sistema com a relação dos funcionários no computador e voltou a falar com Junior:
– Bom, há uma maneira de você fazer algumas horas adicionais na coleta para compensar às que não trabalhou como varredor. O que posso fazer é inseri-lo no sistema de folgas, ou seja, você vai ser colocado na coleta sempre que um dos coletores estiver de folga. O que acha?
– Acho ótimo! – exclamou Junior. – E quando posso começar? – perguntou ansioso.
– Pelo visto você está com pressa. Só um momento que vou conferir as folgas dos funcionários aqui no sistema. – disse a secretária enquanto olhava para a tela do computador. Ah, veja só! Se você quiser já pode começar hoje à tarde. Tem um caminhão que vai sair da COVAT daqui uns 15 minutinhos para fazer a coleta em alguns bairros da cidade. Se você conseguir se arrumar a tempo, já pode sair junto com eles.
– Opa! Que beleza! Então vou começar agora mesmo! Só preciso colocar o uniforme! – disse Junior, realizado com a possibilidade de reaver parte de seu salário.
Ele agradeceu à secretária pela ajuda e seguiu em direção ao vestiário da empresa a fim de colocar o uniforme. Em poucos minutos estava pronto para iniciar o trabalho junto aos outros rapazes que já embarcavam no caminhão. Quando chegou ao pátio da COVAT, apresentou-se aos novos colegas de serviço e pendurou-se no caminhão, que em seguida partiu do local. No caminho, Junior conversava com os outros coletores e explicava a eles sua situação.
– Daí nos dias em que chove, como hoje, por exemplo, a gente fica sem trabalhar e também sem receber. E agora no início da primavera costuma sempre chover bastante...aí, recebemos um pingo de salário no final do mês. Por isso que optei por fazer essas horas aqui na coleta. – relatou Junior.
– Mas e me diz uma coisa, camarada...tu tem experiência na coleta? Alguma vez já trabalhou assim no caminhão, como agora? – perguntou um dos coletores com quem Junior conversava.
– Na verdade não tenho muita experiência não, só trabalhei como coletor por um mês, assim que entrei para a COVAT. Logo depois me tornei varredor. – respondeu Junior. – Mas acho que não tem mistério fazer a coleta. – completou.
– É, não tem mistério, mas tem que ser rápido, ter fôlego e um bom preparo físico para acompanhar o caminhão. Não é mole, não! Mas só porque hoje é teu primeiro dia a gente te dá uma ajudinha se for preciso. – disse o coletor em meio a gargalhadas.
Começaram a coleta pelo bairro Olga Jandira Vagner. Junior esforçava-se para acompanhar o ritmo do grupo de coletores e não demorou muito para que se sentisse cansado de subir e descer do caminhão. Além disso, era necessário ser rápido e preciso ao arremessar os sacos de lixo para dentro do caminhão, que em segundos eram triturados pelo compactador. Numa das vezes em que embarcou de volta para então jogar os sacos de lixo dentro do veículo, Junior enlaçou, acidentalmente, o nó de umas das sacolas nos dedos das mãos. Sem perceber o que havia acontecido, lançou os embrulhos de lixo em direção ao compactador. A última sacola, no entanto, teimou em não se desvencilhar de seus dedos e, quando menos esperava, Junior teve a mão puxada pelo mecanismo de compressão do caminhão. Sua mão ficou presa, sem que ele conseguisse movê-la. O movimento do compactador esmagou sua mão, fazendo escorrer-lhe sangue pelo braço. Junior soltou um grito de pavor e dor e, em questão de segundos, estava inconsciente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Episódio 24


Juseppe não alcançou Jaciara. Confuso, entrou no carro e dirigiu pela cidade, sem rumo, até o anoitecer. Enquanto a cidade dormia, Juseppe pensava no presente e no futuro, avaliando se valeria a pena arriscar o amor de Jaciara por simples egoísmo. Em casa, adormeceu, num sono sem sonhos nem pesadelos.
A manhã seguinte começou nublada. Sem saber se choveria ou não, Capitão do Mato passou na casa do pessoal da COVAT, como de costume, e mal entraram todos na Kombi, uma chuva densa encharcou a cidade.
- Bah, galera, e agora? Não vai dar pra trabalhar! Mas que droga! Cada vez menos trabalho, cada vez menos salário. Que $%#@$%! – irritou-se Junior.
- Opaaa! Têm moças aqui, ô cabeção! Olha essa boca suja. – riu Abelhão.
- Respeito é bom e conserva os dentes, seu besta. – disse Capitão do Mato, acabando com a farra.
Os colegas se entreolharam e não disseram nada. Shirley discou para seu Pedroca, e enquanto esperava a ligação, contou a idéia que tivera aos amigos.
- Vou perguntar pro Seu Pedroca se o Capitão pode nos deixar no hospital, já que a Dona Arzelina tá por lá. Quem sabe já conseguimos a alta dela hoje de manhã e passamos o dia com ela. Que acham? – indagou Shirley.
- Mas, ah guria! Tu é um gênio. Assim, se o Seu Pedroca concordar, o Capitão não pode chiar. – sussurrou Josias.
Explicado tudo a Seu Pedroca, ele concordou prontamente e acrescentou:
- Diz pro Capitão deixar vocês lá e esperar. Se a Dona Arzelina tiver alta, ele que leve vocês pra casa. Diz pra ele esperar, hein, fui eu que mandei! – explicou Seu Pedroca.
Acertados os detalhes com Seu Pedroca e Capitão do Mato, o motorista estacionou em frente ao hospital e prometeu esperar. Mal o pessoal desceu da Kombi, ele arrancou cantando os pneus.
- Mas é um tratante! Estúpido! Cachorro! Volta aquiiiiii! – gritou Shirley, indignada.
- Psiu, silêncio, isto é um hospital. Deixa ele. Se era pra fazer de má vontade, melhor ir embora. A gente vai depois de táxi. – sentenciou Varre Tudo.
- Hahaha, o Varre tá com medo que o Capitão seqüestre a gente. – brincou Abelhão, lembrando-se do episódio da prefeitura. Todos riram enquanto se encaminhavam para o quarto de Dona Arzelina.
- Surpresaaaa!!! - gritaram, abraçando Dona Arzelina.
- Meus filhos, que bom ver vocês. Que maravilha. Sabia que a moça recém me disse que posso ter alta? Bons ventos trazem vocês! – sorriu.
- Mas que beleza! Então vamos levar a senhora pra casa já, já. Vamos todos pra lá passar o dia, cuidamos de tudo pra senhora, não se preocupe. – disse Josias.
Dona Arzelina, com lágrimas nos olhos, agradeceu por tudo e assentiu com a cabeça. Depois de assinar os documentos do hospital, Varre Tudo andou na direção do grupo, mas Junior puxou-a pelo braço. Disse baixinho:
- Olha, não vou pra lá com vocês. Preciso passar no escritório da COVAT, tô apertado de grana, acho que vou pra coleta. A varrição não tá rendendo muito pra mim, não. Esses dias de chuva me matam!
- Bem, tu que sabe! Mas conversamos depois sobre isso, não quero deixar Dona Arzelina esperando. Boa sorte lá guri, te cuida hein!
Junior acenou e saiu. Varre Tudo encontrou com o restante do grupo e contou o porquê da ausência de Junior. Entraram no táxi e logo chegaram à casa de Dona Arzelina. Desceram e mais que depressa apareceu Magali, que era vizinha de Dona Arzelina, para ajudar com a organização da casa. Varre Tudo corou quando viu a moça, e ela lhe deu um abraço apertado, deixando um pouco de seu perfume na camisa dele.
Assim que acomodaram Dona Arzelina, ela agradeceu por tudo. Depois de ser questionada por Magali sobre o acidente, começou a falar o que lembrava. Após um breve relato, Dona Arzelina deu um pulo na cama. Lembrou-se de algo muito importante, mas que ainda não contara a ninguém.
- Eu não caí sozinha. Alguém bateu na minha cabeça. Um homem de preto! – falou, assustada, antes de embaraçar-se com as próprias palavras e começar a chorar.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Episódio 23


Varre Tudo ficou um longo tempo sentado. Ele não estava com medo da macumba, do fantoche nem mesmo do sonho. Respeitava todas as crenças e religiões, mas não acreditava em magia negra. Só estava impressionado com as atitudes suspeitas de Juseppe e surpreso com sua própria reação.
- Eu sempre encarei tudo de frente! Chega! Vou acabar de vez com essa história! – esbravejou, dando um soco na cama.
Ele guardou a caixa cuidadosamente dentro do guarda-roupa. Seria a primeira prova que ele iria usar contra as pessoas que queriam lhe fazer mal. Terminou de se vestir e foi esperar a Kombi. O Capitão chegou e, quando eles estavam percorrendo o centro da cidade, passaram por Juseppe. Ele caminhava apressado com as mãos nos bolsos. Varre Tudo ficou observando e começou a planejar como iria desmascarar o guarda, sem magoar Jaciara. O rapaz passou a manhã toda varrendo o parque silenciosamente. Shirley e Josias até tentaram conversar com ele, mas mesmo assim Varre apenas abanava com a cabeça. Ele, enfim, tinha tomado uma decisão. Depois do almoço, Varre Tudo e os amigos foram para a praça. Mais uma vez eles avistaram Juseppe de longe. Ele atravessou a praça, entrou no carro e passou próximo a eles. Quando se aproximou, baixou o vidro e disse em tom de deboche e com uma expressão sinistra no rosto:
- Te cuida, Vassourinha! Ouvi dizer por aí que tu anda com azar...De repente, tu cai e quebra as pernas...
Varre Tudo sorriu e aquele sorriso fez o sangue de Juseppe gelar.
- Será que ele sabe? Droga! – pensou ele, enquanto acelerava, passando o sinal vermelho.
Juseppe estava atordoado e suava frio. Ele tinha que resolver o que fazer. Aproveitou a folga para ir até a Gráfica Papagaio sem levantar suspeitas. Estacionou em frente à gráfica, entrou e acenou para Maurício. O guarda se dirigiu discretamente para os fundos da gráfica, que estava lotada naquela tarde. Cabelera, que estava colocando três aves raras nas gaiolas, virou-se e cumprimentou o amigo.
- E aí, meu? Resolveu aquela parada? – indagou Cabelera.
- Resolvi, nada! Fiz tudo isso e agora aquela droga de falsificação não adianta! Tive na prefeitura hoje e o Vassourinha já teve lá – disse ele, chutando a porta.
- E agora? Eu te avisei! Entrou na idéia do Maurício! Dá nisso, viu! Mas vê cá. Lembra do cara da responsa? Me ligou e disse que traz a mercadoria ainda essa semana! Sacou? Te anima, é grana certa – disse ele, piscando.
Maurício chamou Cabelera, que voltou apressado.
- A Jaciara tá aí, Juseppe! Sai por aqui, porque ela já deve ter visto o teu carro, meu!
Cabelera abriu a porta lateral para o amigo, mas quando ele estava passando em frente à gráfica para entrar no carro, Jaciara abriu a porta.
- Juseppe! – gritou ela nervosa.
- Oi, amor! O que tá fazendo aqui, minha linda? – disse, tentando parecer surpreso.
- Eu vim fazer umas cópias, mas estou tão angustiada, que acabei esquecendo os papéis lá na reciclagem.
- Mas veio fazer cópias aqui tão...
Jaciara interrompeu o namorado. Ela estava muito nervosa e agitada.
- Olha só, Juseppe, não interessa o que eu vim fazer aqui! Nós precisamos conversar sobre a gente. Não nos vemos mais. Esse fim de semana inventou outra desculpa pra não me ver. O que está acontecendo? – perguntou irritada.
Jaciara estava triste e decepcionada. Ela queria acreditar que a tristeza e o aperto no peito eram apenas saudades do namorado, que não lhe dava mais a atenção de antes. Mas ela sabia que esse não era o motivo. Não conseguia aceitar que tivesse passado quatro anos com alguém que na verdade não conhecia. Jaciara se sentia perdida em um labirinto de emoções. Juseppe era seu namorado, merecia confiança, respeito e compreensão, mas ela não sabia o que fazer. Se ele realmente tivesse tentado prejudicar Varre, iria provar que era mau caráter, e Jaciara não conseguiria dar apoio e ficar com alguém assim. A moça estava confusa e assustada demais e sentia vontade de sair correndo, esquecer tudo.
- Calma, Jaci! Amor! Eu posso explicar. – disse ele gaguejando.
Pela primeira vez Juseppe compreendeu o quanto podia perder com toda essa história. Ele não podia deixar que ela descobrisse seus planos. Ele achava que se Jaciara, soubesse iria correndo para os braços de Varre Tudo. E isso Juseppe jamais iria aceitar.
- Fala de uma vez! Nós somos namorados e tu nunca me fala nada, não divide problemas, não me conta mais aonde vai, nem sequer quer saber se saí com alguém ou se fiquei em casa! Pra ti tanto faz! – gritou ela.
Jaciara suspirou e tentou se controlar. Ela não queria chorar, mas lágrimas teimosas escorriam por sua face. O namorado a olhava em silêncio. Juseppe nunca a tinha visto tão braba e irritada. Jaciara era uma moça calma, alegre e gentil, mas agora ele não sabia o que fazer. O silêncio entre os dois era como um abismo. Jaciara sentia como se estivesse perdendo o namorado. Ela tentava alcançá-lo, mas ele escapava entre seus dedos.
- Então? Como sempre, tu não vai falar nada? Quer saber, nem sei por que estamos juntos. Tu não se importa! Tchau!
Jaciara atravessou a rua correndo. E Juseppe ficou lá olhando a namorada. Ele estava vermelho de raiva e vergonha, enquanto gritava para que ela lhe desse mais uma chance.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Episódio 22


Depois de mais uma tarde de trabalho, Varre Tudo foi para casa. Eram cinco horas da manhã quando ele percebeu que foi arrancado da cama por seis braços.
- Mas o que é isso? – indagou Varre Tudo – O que estão fazendo comigo? Para onde estão me levando?
De repente, um saco preto impedia a visão de Varre Tudo e ele se debatia, mas os braços eram mais fortes.
- Que cheiro forte é esse? Parece enxofre. Onde estou?
- Fique quieto, Varre Tudo. Logo isso vai terminar, e como você é um rapaz muito bom, corajoso e amigo, vai entrar no reino dos céus.
Hehehehe – disse uma voz grave.
- Nossa! Mas quem é você? – indagou Varre Tudo.
Foi quando um homem de preto retirou o saco e Varre Tudo conseguiu respirar com maior facilidade. Viu que estava em um lugar escuro e que não conhecia. Do seu lado, estava o vodu que lhe enviaram há alguns dias e do qual nem lembrava mais. De repente, ensacaram sua cabeça mais uma vez e enrolaram seu pescoço em uma corda.
- Não! – gritava Varre Tudo – O que eu fiz? Por que querem me matar?
- Você está fazendo o que não deve. Fique na sua, Vassourinha!
- Juseppe! Qual a sua, cara? Me tira daqui, vamos conversar.
Varre Tudo sentiu uma dor forte no pescoço quando...
- Trim!Trim!Trim!. Era o despertador. Ele acordou assustado. De um pulo, sentou na cama, estava todo molhado de suor.
- Nossa! Tive um pesadelo! Por que isso agora? – perguntou angustiado.
- E aquele vodu? Espera, ele deve estar aqui no meu quarto ainda.
E Varre Tudo começou a vasculhar todo o quarto, em busca da caixa que recebera com o vodu dentro. Atrás da cama, encontrou a caixa.
- Deixa eu ver, deixa eu ver. – pensava ele. – Aqui! – exclamou.
- “Na árvore do enforcado cuidado com a corda” – leu Varre Tudo. Mas o que significa isso?
Meio atordoado, Varre Tudo jogou a caixa em cima da cama e ficou pensando no sonho e no que poderia significar aquela frase.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Episódio 21


Com o chapéu preto nas mãos, Varre Tudo encontra os amigos.
- Nossa! Mas terminou rápido mesmo, hoje – surpreende-se Josias ao ver o amigo retornando.
- Não, não terminei, não... É que... Alguém tá mexendo sério comigo. Sabe o vulto da Árvore do Enforcado? Acho que ele é de carne e osso...
- Ih... – suspeitou Shirey – minha vó sempre disse que a gente tem que ter mais medo dos vivos do que dos mortos.
- Hoje vi alguma coisa de novo e, quando me aproximei da árvore, encontrei esse chapéu – explicou o varredor.
- Ei! Deixa eu ver esse chapéu, Varre? - pede Josias.
O rapaz examina o acessório. Olhá de cá. Olha de lá. Observa:
- Lembra daquele dia em que o Capitão do Mato falou com um cara todo de preto?
- Hã! - se espanta Shirley.
- Ele usava um chapéu muito parecido com esse... - concluiu Josias.
- Putz! Caramba – esbravejou Varre Tudo – E pior... eu tenho agora, ligando os fatos, a impressão de que foi o mesmo cara que me assaltou. Que saco! Tô ficando cansado e bem preocupado com toda essa história. Será que tudo que aconteceu comigo tem uma ligação?
- Varre, começa a tomar cuidado – aconselha Shirley – ,mas... eu não entendo como alguém pode querer fazer algum mal pra um guri boa gente como tu.
- Bah... Mas e o Capitão do Mato? Será que ele tem mesmo relação com todo esse rolo? - questiona Varre Tudo – ah! Eu nem contei pra vocês... Lembram o dia em que estourou o cano na prefeitura? Vocês nem tinham tirado as vassouras da Kombi e ele arrancou. Ele disse que ia me levar pra algum lugar. Minhas pernas tremiam enquanto ele pisava fundo no acelerador! Pulei da Kombi e voltei pra prefeitura, mas nem consegui falar com vocês.
- Ué! - estranhou Josias – mas onde ele ia te levar?
- Não quis me dizer. Não sei o porquê. Mas entendi que ele queria me usar de cúmplice pra alguma coisa.
- Que esquisito! Olha só, Varre, a coisa tá ficando feia! Tu não varre mais sozinho lá no Enforcado. Troca comigo. Fica aqui com Josias que acho que tu fica mais seguro.
- Bah, Shirley, é melhor assim. Obrigado. Deixei as minhas coisas lá – disse Varre Tudo.
Continuaram o serviço até o meio-dia, quando se encontraram na sala, ou melhor, no que sobrou dela. Abelhão e Junior estavam sentados em um sofá velho, que havia sobrado do incêndio. A cara dos dois não era nada boa.
- Pô, Abelhão! Tu andou fazendo piada de mau gosto, foi? - perguntou Varre Tudo.
- Não - disse o Abelhão – tu não viu teu salário?
- Vi, sim, mas é que esse mês choveu muito. A gente sempre fica prejudicado nesses dias.
- Ah... eu tô achando muito estranho. Esse mês não passaram minha relação de horas pra eu conferir. Tô desconfiado – argumentou Junior.
- Imagina, ninguém da companhia vai roubar da gente. Foi culpa do mau tempo mesmo. Não vai ser fácil esse mês – lamentou Varre Tudo –, pagando o aluguel, sobra menos ainda – o varredor ficou pensativo enquanto os amigos estavam em silêncio – A gente podia pensar em alguma forma que nos auxiliasse nesses dias de chuva e vento. A COVAT deve precisar de algum outro serviço em que a chuva não seja um empecilho. Vou pensar em alguma coisa, depois a gente faz uma proposta.
- Sim! Tu sempre tem boas idéias. É esperto! Mas, Varre, eu tô dizendo, acho que tem alguma coisa errada com nossos horários – insistiu Junior.
Varre Tudo desviou do assunto:
- Bom, eu tô com fome! Vamos almoçar?
Os cinco saíram e comentaram sobre o estado de Dona Arzelina. Ela começava a se recuperar.